Aprenda a plantar plantando

Maria queria ser boneca: unhas feitas, cabelos sedosos, sorriso perfeito (e robótico), nada mal cheiroso ou que a lembrasse de sua humanidade. Tirar o lixo era algo que ela jamais fazia. Imagina só, sujar as mãos, sentir o fedor do apodrecimento, limpar os espaços da casa, às vezes encontrar uma barata ou larvas, URGH, definitivamente não era o tipo de trabalho que ela faria.

Naquele dia, no entanto, estava sozinha em sua casa e precisou fazê-lo. O medo e ansiedade a dominaram, ela pensava: “E se eu achar larvas? E se o chorume escorrer no meu pé? Qual melhor sapato para fazer isso?”. Enquanto pensava para decidir como tirar o lixo, sofreu, sofreu. Quem não admite que tem sujeira dentro de si, às vezes sofre para limpar a sujeira de fora. Por fim, ela resolveu colocar sua roupa mais bonita: saltos altos e rosas, vestido rosa, cabelo trançado e chapéu. Tirou o lixo rapidamente e fez caras e bocas, quase vomitando. Ao finalizar a tarefa, pensou que uma caminhada pela cidade caberia bem.

Com seus olhos altivos e após andar um pouco, encontrou uma trilha para um pequeno bosque. Entrou na trilha e começou a achar o lugar bonito, gostau do cheiro engraçado que a falta de concreto tinha, ela queria dizer que gostava do cheiro natural da terra, mas tão distante da simplicidade não tinha mais conexão com a natureza. Continuou andando e logo a frente achou o bosque. Naquele dia, uma criatura ministrava naquele local um pequeno workshop denominado: “APRENDA A PLANTAR PLANTANDO”, ministrado por Novélia Bucólica, o cartaz dizia. A criatura-mestra ensinando o workshop tinha esse nome porque, como se pode imaginar, amava as plantas. 

Maria Boneca achou o nome do workshop bem sem graça e sem nenhuma criatividade, prontamente entrou no bosque procurando por Novélia e pensava:

Vou dar-lhe uma lição de como vejo a vida melhor que ela, minha criatividade é insuperável. Certamente posso dar a ela melhor sugestão de nome para o workshop.

Enquanto falava, olhou os próprios sapatos rosas que já estavam ficando sujos por conta da lama e começou a se sentir um pouco desesperada por ver a sujeira. Os saltos finos também ficavam quase que presos no chão enquanto ela andava, soltou um sorriso estranho e amarelo, meio torto e feio, nervoso e desesperado. Fez um esforço danado para andar e encontrou Novélia.

Novélia era tão alegre, vibrante, contente. A calça marrom de linho, antes branca, era sinal de seu apreço pelas plantas e pelo que estava no chão. Os pés descalços a reconectavam com a vida. Enquanto seus pés tocavam o chão, ela se lembrava que tudo o que passou, passou. Todas as experiências da vida a trouxeram para esse momento no qual ela podia plantar e colher, sentir a terra e o seu cheiro, não tinha vícios e vivia com contentamento. Ela também vestia uma camiseta leve e sem mangas que exibiam seus braços fortes porque trabalhavam bastante. Um chapéu cobria sua cabeça e lhe dava proteção contra o sol. Maria Boneca foi diretamente a ela e disse:

Meu bem, pelas suas roupas você deve ser Novélia Bucólica, não é mesmo? Tenho tanto para te ensinar! Que nome mais sem graça é esse? Talvez você deveria primeiro ensinar aulas teóricas, com apresentações em slides e depois, só depois de trazer conhecimento teórico, ensinar como se planta na prática.  

Novélia a olhou nos olhos e acenou com a cabeça, depois continuou a ajudar uma aluna a abrir uma fenda para o plantio. Novélia e a aluna abriram a fenda. Logo após esse momento, algo completamente inimaginável aconteceu, a aluna se jogou na terra, caiu num sono profundo e foi coberta de terra como se estivesse morta. Maria Boneca viu seu coração pular no peito e chegar a garganta. Jamais imaginaria que o plantar se dava por plantar a si mesmo, que loucura era essa?, sentia que iria desmaiar. 

Novélia olhou para ela e viu o espanto em seu rosto e disse: 

Eu sei, rs… Esse é um ciclo de sono profundo. A terra nos acolhe e cuida das nossas feridas internas e nos devolve novas para continuarmos a viver na grande Terra. Você quer experimentar? Só é preciso estar nu, mas estamos entre mulheres, o ambiente é seguro. Depois cavamos a terra, celebramos esse momento com danças e músicas de agradecimento pela jornada vivida até aqui, e então você dorme por 24 horas, acorda amanhã já nova e tudo isso sem custo, você quer tentar? 

Enquanto conversavam, Maria Boneca via outras mulheres renascendo em tantos formatos e cores. Seus olhos pareciam imersos por uma luz nunca experimentada antes. Ela se perguntava se em algum momento já tivera vivido tanto deslumbre e contemplação. Lembrou-se de que sofreu tanto para tirar o lixo de manhã, talvez porque não conseguisse ver o seu próprio. Ela pensou por alguns momentos e sentia que o medo do que é feio e mal precisava ser encarado, ela queria ser real e abraçar tudo o que havia nela, bom ou ruim.

Quase sem perceber mas já cheia de coragem começou a se despir. Em sua pele viam-se marcas de roupas apertadas e tantos calos de sapatos desconfortáveis, também tirou a maquiagem e se achou até mais natural. Destrançou os cabelos e lembrou que eles são também tão bonitos soltos. Ela que sempre quis controlar tudo, tinha começado a aceitar sua humanidade. 

Cantaram, dançaram, abriram a sua fenda e celebraram esse momento e o ciclo de morte e vida. Depois oraram e pediram que essa passagem trouxesse vida em abundância. Maria Boneca deitou, um pouco acanhada mas sem medo, fechou os olhos, sentiu a terra envolvê-la como um cobertor gostoso em tarde de inverno e depois dormiu.

Sonhou longamente, viu seus medos, dores, chorou e foi regando a terra na qual foi plantada. Seus cabelos soltos, agora hidratados pelas lágrimas, se tornaram raízes que alimentaram todo o seu corpo. Aos poucos suas novas vestes brotaram em seu corpo. Ela vestia cinza e azul, suas unhas agora eram coloridas e ela recebeu um grande chapéu. Ao seu lado cresceram lápis, papel e também um violão. Do lado de fora da terra, Novélia Bucólica assistia seu crescimento. 

As flores que cresceram por fora eram coloridas e cheiravam a laranjas e manjericão, fez muito sol aquele dia. Depois das 24 horas as flores foram colhidas para presenteá-la como um símbolo de todo crescimento pelo qual ela passou. A qualquer momento se descobriria o novo nome daquela que havia sido Maria Boneca. O solo começou a se mover e de lá logo apareceram dedos com unhas coloridas como as flores cavando a terra. Já em pé, chacoalhando os cabelos e dando pulinhos ouviu-se:

Olá, meu nome é Maria Meleca, sou contadora de histórias!

Um comentário em “Aprenda a plantar plantando

  1. Não sei dizer o quanto amei esta produção. Fico feliz que tenha decidido compartilhar aqui! Ver o processo difícil pelo qual Maria passou foi de uma sensibilidade gigantesca. Parabéns, Lívia! Que Deus abençoe sua jornada nas/entre/com as palavras 💜

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