Sou de ninguém

Gritando mentalmente mas sorrindo pra quem não importava, ganhei uma gastrite. O ácido corroía meu esôfago, mas já tinha acabado com minha dignidade há tempos.

Eu não sorria, caminhava pouco. Não subia escada pra não tropeçar, não usava salto pra não doer o pé, fui me acostumando a me proteger. Perdi-me do óbvio, do calor do sol do meio-dia, do cheiro da planta e do gosto de café com bolo.

De tanta proteção, me peguei cronometrando os horários de comida; temia desacelerar o corpo.

Mudei de caminho temendo ouvir cantadas; corri de encontros, com desculpas esfarrapadas, temendo não ter o que vestir.

Andando calmamente numa tarde chuvosa – que eu deveria temer pela escuridão – ouvi passos atrás de mim e apressei o passo, fantasiando mil temores.

Vibrei alegremente – sem mover um músculo facial, claro – quando vi do outro lado da rua uma moça que corria em minha direção gritando bravamente contra todos os absurdos sexuais que eu, já tão acostumada a ouvi-los, não tinha escutado.

– Se manda, irmão! Mulher nenhuma é tua “princesa”, “gatinha” ou qualquer porra que você disser! SE MANDA!

Terminamos a tarde molhadas, correndo de um tarado com um pedaço de pau, mas certas da reação contra o que deveria ser óbvio: respeito na rua.

Meses depois, mudei-me para Florianópolis. O episódio deu-me melhora mental convertida, obviamente, para melhora corporal. Não havia mais gastrite e havia muito mais sinceridade na vida.

Obviamente, a superação dos nossos temores não atinge toda a sociedade e, lá estava eu ouvindo barbaridades na rua novamente.

Sorrindo, respondi:

– tudo bem, amor? Você me conhece de algum lugar?

O constrangimento ofuscou toda coragem daquele rapaz que achava ter qualquer direito sobre mim.

– E… Eu… Não!

– E tá falando assim comigo por quê? A gente tem talvez esse tipo de intimidade com quem a gente conhece. Se nunca me viu antes, melhor parar! Fica esperto!

Ele sorriu ironicamente e não foi mais visto por aí a encher ninguém!

Eu caminhei calmamente, voltei para o apartamento chorando e lamentando ser mulher nesses dias.

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